2015 vai ficar na história como um ano de forte retração econômica no Brasil em todos os setores. No meio de toda essa recessão, a palavra de ordem, nas empresas e nos orçamentos familiares, é reduzir gastos. E reaproveitar recursos, reciclar e reusar. Quem já acredita e investe nisso há mais tempo, como as empresas do mercado de remanufatura de autopeças, reunidas na Associação Nacional dos Remanufaturadores de Autopeças (ANRAP), conseguiu transformar a crise em oportunidade. Aumentaram a conscientização e o conhecimento dos clientes em relação ao setor e, com isso, registraram crescimento de 10% no último ano, participação de 6% no mercado brasileiro de reposição com uma média anual de 2.600 toneladas de matérias primas recuperadas e mais investimentos em 2016 com expansão acima da média do setor industrial.

O presidente da ANRAP, Jefferson Germano, reconhece que a retração no mercado de venda de veículos novos e a valorização do dólar são fatores que contribuíram para esses resultados, mas também elenca a evolução dos processos industriais e investimentos em tecnologia feitos pelas empresas ao longo do período como protagonistas na expansão alcançada em 2015.

“Não existe crise para o nosso segmento. Claro que enfrentamos dificuldades específicas, como as de logística e de tributação. Mas continuamos investindo. E entendemos que o conceito da remanufatura está em alta. Estamos conseguindo fazer o consumidor perceber a oportunidade que nossos produtos representam para a sustentabilidade global e o meio ambiente”,  ressalta.  

O expressivo ganho na área de legislação e governo também colaborou para este cenário. A ANRAP foi uma das incentivadoras do processo de promulgação da norma 16.290 da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. A nova norma para bens reprocessados define os produtos em três categorias distintas: remanufaturados, recondicionados e reparados. Este foi um passo importante para preencher a grande lacuna existente no mercado sobre a definição dos processos de reconstituição dos produtos usados. Segundo os fabricantes, a partir do momento que o produto encerra sua vida útil, o usuário precisa estar ciente dos meios que podem reconstruí-lo, quais as tecnologias e responsabilidades ambientais inseridas nos processos.

Germano lembra também a importância da Lei do Desmanche nesse fortalecimento do setor de remanufatura em 2015, assim como o trabalho de conscientização desenvolvido pela ANRAP junto a sindicatos e associações relacionados com os produtos recondicionados e reparados. “Quebramos paradigmas. Fizemos um trabalho de aproximação e relacionamento com esses grupos para mostrar que no mercado de autopeças há espaço para todos”, explica Germano.     

Dentre os principais objetivos desse grupo de fabricantes, em conjunto com o Sindipeças – parceiro da ANRAP para assuntos ligados à legislação e governo – está a criação de uma pauta conjunta que possa ser reivindicada junto às autoridades responsáveis, como a questão da redução da carga tributária do setor e o combate à pirataria, seguido de um melhor entendimento do mercado internacional e a sensibilização de empresas que ainda não despertaram para a importância da remanufatura no segmento.

“É preciso mostrar ao mercado todo o potencial de desenvolvimento sustentável por meio da entrega de produtos remanufaturados de qualidade e certificados. Ainda há aplicadores e usuários que desconhecem essas forças do segmento”, alerta o coordenador do grupo de remanufatura do Sindipeças, Salvador Pugliese.  

Usuário de produtos remanufaturados há mais de uma década, o gerente de manutenção da Viação Miracatiba, Luiz Geraldo Baldin, também vê essa necessidade de um maior reconhecimento dos benefícios que o produto traz, além de uma tributação mais adequada que permita a prática de preços melhores. “O remanufaturado ainda custa hoje 70% do valor da peça original. Se esse percentual fosse menor e a oferta ao mercado maior, essa adesão aos produtos remanufaturados seria mais rápida”, atesta.

Para ampliar o conhecimento do segmento de remanufatura no país, o Sindipeças realizou uma pesquisa junto a todas as empresas afiliadas para entender como estão preparadas ou não para a remanufatura, que tipo de investimentos pretendem fazer e quais são suas principais demandas em 2016. O resultado da pesquisa, feita com as empresas afiliadas, mostra que 23% já têm processo de remanufatura em suas instalações, 95% dessas têm portfólios com condições de rastreabilidade e 89% já contam com algum programa de retirada de peças ou de logística reversa.

Na mesma sondagem, as empresas do setor projetam um crescimento de 9,5% para 2016 e enxergam muitas oportunidades para a expansão do segmento, mas reconhecem que o caminho ainda é longo. No mundo, os produtos remanufaturados correspondem a 16% do mercado pós-venda e a taxa média de crescimento anual é de 10%, segundo dados divulgados pela International Remanufacturing Summit. Na América do Norte, região com perfil de consumo parecido com o do Brasil, essa participação chega a 20%. A ANRAP projeta uma participação de mercado semelhante para os produtos remanufaturados até 2020. “2016 vai ser um ano de mais trabalho, temos que avançar nas questões tributárias e tecnológicas, melhorar os programas de logística reversa. Mas também vamos colher ainda mais resultados positivos”, garante Germano.

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